segunda-feira, 6 de junho de 2011

O matinho em delírio

João Carlos Alves Rodrigues

SOU O “MATINHO” do Morro do Espelho e me vejo em vidros dos edifícios do entorno. Sou matéria e energia, num espaço e num tempo. Sinceramente, me acho bonitinho. Olhado de cima, ninguém sabe bem o que há dentro de mim. Gostaria de conhecer os que me veem e respiram o meu ar: as crianças que consomem meu oxigênio. Minha sombra é compacta, mas raios de sol e de lua me penetram. Sou agarradinho no dorso da mãe terra. Ela é minha montaria que viaja dia e noite na fantasia dos poetas, dos sonhadores, dos cantadores. Venho de sementes caídas dos frutos, ou trazidas por pássaros, ventos e tal. Os frutos alimentam muitos pássaros e outros animais. Os frutos são matérias energizadas pelas flores, que tanto me embelezam. Minhas flores de muitas cores e tamanhos alimentam milhares de seres com a preciosidade do néctar e do pólen. Eles vêm se alimentar e fazem a polinização, passando de uma para outra, para outra e para outra. Quem nunca viu uma mamangava fazer isso tem que ver. Ela é uma poderosa polinizadora. Tão poderosa que a flor do maracujá capricha em atraí-la com uma plataforma lindamente colorida e com pétalas enormes para suportá-la e tê-la a seu serviço. Os beija-flores vasculham faceiros com seus bicos compridos - em voos eletrizantes. Eles são tão belos. As abelhas, aos milhares, trabalham intensamente a produzirem o alimento de sua rainha e da colmeia e os homens dizem que é mel e mais e compartilham. E assim, assim. As borboletas multicoloridas, os marimbondos - parece não servirem para nada – a engenharia das aranhas. Aqui estão também.

VOU ACABAR - Eu, o “matinho”do Morro do Espelho, vou acabar. Para ser quem sou, tenho centenas de plantas. Umas frágeis, outras fortes e altas a abrigarem e protegerem animais. Nelas se alimentam e descansam, às centenas. Não falo sobre os cães e gatos e cobras e ratos e formigas. Nem sobre mariposas, lagartixas, cigarras... Aí há tantas outras vidas de pequenos seres com abrigo seguro para reprodução. Os ninhos são testemunhas. Na terra, bilhões de seres, a começar pela popular minhoca, antes dos invisíveis.

VOU SUMIR - Sumirá tudo comigo. Ficará uma cabeça (sem cabelo, sem chapéu), estorricada, um cérebro sem neurônios. A cidade perde um pedaço sadio de seu pulmão. Não haverá orvalho de minha transpiração e a chuva - em busca do lençol freático - não me encontrará.

MAS POSSO E QUERO FICAR. Sem prejudicar ninguém. Eventuais investidores terão outro lugar no planeta ou até fora dele, sem prejuízo. O proprietário do espaço deve ser indenizado, justamente. A sociedade autoriza o poder público a defender o justo. A Justiça equaciona. Ninguém deve sacrificar seu interesse. Fica meu ar, minha sombra, minha beleza, como espaço de lazer e pesquisa. Meus tons de verde, minhas flores, meus perfumes, meu ecossistema, tudo ficará para as gerações que irão agregar minha história à estória dos espelhos no morro que virou do Espelho.

2 comentários:

mausi disse...

Desvarios imobiliários esquecem o meio ambiente, regidos que são pela crença de que o ter é muito mais valorizado do que o ser. O matinho do Sinodal/Morro do Espelho tem sofrido incursões avassaladoras. Tento relembrar de idas e vindas às aulas, no Sinodal, com o perfume das barbas-de-pau, flores silvestres, framboesas e daqueles cipós alegres. Hoje, minha memória ainda percebe, apesar dos espigões, a saúde e a imponência daquele matinho que, nos tempos do colégio, pensávamos eterno. Se o matinho for decapitado por mais um espigão, será outro pulmão verde arrancado de nossa vida.

Adroaldo Diesel Filho disse...

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte...

E principalmente a gente quer qualidade de vida.

Revisão do Plano Diretor

Motivados pela supressão de áreas verdes e matas nativas na nossa cidade para fins de especulação imobiliária, nós exigimos a imediata REVISÃO DO PLANO DIRETOR DE SÃO LEOPOLDO!

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